Renault
Scénic RXE 2.0 16V no uso prático
O
mercado dos veículos familiares vai se convulsionando rapidamente
no Brasil, com mais consumidores se convertendo à praticidade e conforto
que as minivans oferecem e a chegada da Renault Scénic praticamente
construiu um segmento à parte.
Carlos Roberto Fernandez
O Mercado comprou a idéia, tanto que o tema de lançamento da Scénic inteligência foi absorvido com entusiasmo, gerando forte curiosidade sobre o carro. Este conceito, apenas aparentemente simples, continua a guiar tanto a pioneira Renault como os concorrentes, a quem não sobra muito que fazer, exceto persegui-la num esforço contínuo para mostrar ainda mais inteligência, desta vez no lugar certo, dentro do habitáculo, que é onde o comprador usufrui o carro. A cultural paixão francesa pelas artes chegou ao design, ponto onde, ao menos na indústria automobilística, décadas de história associaram carros franceses a excelência em inovação, robustez e desempenho, mas com estilo, digamos, em descompasso. Os projetos franceses recuperaram essa desvantagem em tempo recorde, estando hoje, entre os carros mais admirados pela beleza, segurança e arrojo das linhas.
É
nesse arrojo temperado que a Renault aposta para fazer a Scénic ainda
mais atraente ao público que deseja um carro funcional, confortável
e seguro, sem abrir mão da beleza. O apelo estético é
sempre um desafio num monovolume, pois as soluções artísticas
acabam contrapondo-se às demais componentes do projeto de engenharia,
à segurança passiva e à obtenção do espaço
interno dentro das dimensões e peso compatíveis com a plataforma
mecânica. Se no modelo anterior da Scénic, os projetistas conseguiram
um compromisso que privilegiava a personalidade e a identidade da marca
num quadro de linhas leves e equilibradas que atenuam e dão graça
às formas maciças, o inapelável caixote,
as mudanças introduzidas no modelo 2001 tornaram-na genuinamente
bonita. A principal diferença está na dianteira, totalmente
redesenhada e com enormes grupos óticos. Ao redor do carro, apenas
pequenos detalhes nos pára-choques e lanterna traseira completam
a reestilização. No
interior, apenas detalhes distinguem o novo modelo. A boa ergonomia e os
bancos confortáveis, entre os poucos do País a oferecer uma
regulagem lombar eficaz, foram mantidos. Assim como o bom layout geral dos
comandos e a confortável posição de dirigir.
A
disposição dos instrumentos e luzes de alerta do painel foi
modificada, permanecendo a popular iluminação vermelha, contra-indicada
pelos manuais de ergonomia, pois se torna cansativa e favorece o ofuscamento
do motorista após uma longa exposição dirigindo à
noite. O controle eficiente de luminosidade e a tonalidade âmbar utilizados
na Scénic amenizam estes efeitos até um nível aceitável
de conforto. Excelente idéia foi a incorporação do
computador de bordo no display do odômetro parcial, com funções
simples e importantes e numa posição excelente para se tornar
um auxiliar eficaz do motorista.
Nenhuma mudança em relação à boa visibilidade em todos os sentidos, à frente e pelos espelhos, um pouco pequenos, mas com boa curvatura, compensando adequadamente o campo visual e eliminando pontos-cegos. O novo rádio/CD da VDO tem visual clean, tanto que não nos foi possível encontrar alguns comandos sem consultar o manual. A escolha desse modelo certamente favoreceu o painel sob o aspecto estético, tornando-o mais agradável, bem como as pequenas modificações feitas na região do console central. Ressalva apenas ao buraco existente para movimentação da alavanca do freio de mão por onde escoam moedas e chaves.
Também
os comandos remotos do sistema de som foram melhorados em relação
ao modelo anterior, reposicionados em relação ao volante,
este também redesenhado. Alguns comandos espalhados fora do layout
lógico ou em posições improváveis não
chegam a comprometer a inteligência e a funcionalidade geral do posto
do motorista. Como adição ao pacote de conveniência,
num carro desta categoria, deveriam constar teclas one-touch
para todos vidros, bem como a eliminação dos jurássicos
pinos de trava das portas traseiras. O layout interno inteligente e flexível
continua a ser o trunfo da Renault. Praticamente inalterado em relação
ao modelo anterior, permite escolher dezenas de combinações
possíveis, inclusive com a remoção dos bancos traseiros,
configuração em que o volume útil do porta-malas alcança
as dimensões de 920 x 1070 x 1640 milímetros, ou 1614 litros
úteis. Na posição dos bancos que acomoda com maior
conforto quatro adultos e uma criança (a largura do banco central
traseiro é aproximadamente a mesma de um assento infantil), o porta-malas
acomoda 407 litros úteis, adequado para o uso típico de uma
família em viagem.
O pequeno porta-luvas e a pouca funcionalidade do console central são amplamente compensados pelos amplos bolsos nas portas e outros porta-trecos espalhados por todo o carro, sob o banco do acompanhante e no assoalho traseiro. No item conforto, ponto positivo para a macia e eficaz suspensão e para os encostos de cabeça traseiros, que podem ser posicionados para crianças utilizando assentos nos bancos traseiros laterais. Ponto negativo para o ar condicionado preguiçoso e com saídas de ar pequenas, próximas aos pés dos ocupantes traseiros. O nível de ruído também deixa a desejar, devido à barulhenta ventoinha do ar condicionado e do ruído do motor que invade o habitáculo a cerca de 120 km/h.
O motor de 2.0 litros e 16 válvulas surpreende pelo desempenho, dando à Scénic uma agilidade e velocidade capazes de atrair compradores de carros de outras categorias. A Renault poderia, no entanto, diminuir o corte brusco e incômodo de potência que acontece a 5400 rpm. A 196 km/h, com controle perfeito e estabilidade direcional excelente, a Scénic mostrou um desempenho inesperado nesta categoria de veículo. As acelerações e retomadas também não deixam por menos, dando ao carro agilidade na cidade e segurança na estrada. As curvas exigem certa perícia até que o motorista se acostume com o volante rápido. A Scénic inclina menos do que esperávamos em virtude do centro de gravidade, transmitindo uma sensação de segurança adicional, mostrando-se dócil e neutra até as proximidades do limite de aderência. No limite (situação raramente aplicada pelo usuário comum), o carro mostra alguma tendência a reagir negativamente às ondulações e irregularidades do piso, tornando-se nervoso e imprevisível, que evolui rapidamente para uma situação crítica, se o motorista não reagir rapidamente e do modo correto. As manobras evasivas ocorrem em perfeita segurança, com o carro mantendo-se equilibrado e sob controle durante todo o processo e retomando a trajetória original com facilidade e precisão.
Matéria publicada na edição 108 - Julho de 2001