Kangoo
Express 1.0 no uso prático
A
expressão "Patinho feio" forma a média dos comentários recebidos pelo Kangoo
Express. Mas ao observar o espaço interno, as portas e o acabamento que
a Renault deu à área dos ocupantes e ao baú, surgia uma opinião quase unânime
quanto ao grande potencial do veículo.
Carlos Roberto Fernandez
Desde o Twingo, passando pela Mégane Scénic, e agora o Kangoo, a Renault tem fixado na mente do consumidor brasileiro a imagem de uma marca que propõe novos conceitos, rompendo com os padrões. E de oferecer aos consumidores, carros que dão mais que simples funcionalidade, agregam novidades que eles sequer esperavam. Com esse furgão urbano, apresenta agora ao mercado brasileiro um carro novo e muito competitivo para os serviços de coletas-entregas e profissionais liberais, um segmento sedento de renovação.
A interessante estética do Kangoo é a primeira impressão que se tem do carro. Na realidade, é provavelmente a melhor maneira, tecnicamente, de lidar com as necessidades de um projeto de furgão urbano, sem ter de apelar para um design monovolume ou soluções que passam sempre a impressão de ter sido enjambradas sobre uma carroçaria de pick-up de pequeno ou médio porte. Na forma escolhida para o Kangoo, os projetistas puderam obter, ao mesmo tempo um aspecto não revolucionário, de modo a diferenciá-lo de concorrentes de maior porte ou asiáticos de capacidade de carga equivalente, uma boa proteção aos ocupantes em caso de impacto e um cofre de motor suficientemente compactado mas com excelente acesso para reparos e manutenções (num monovolume essas duas funções ficam fortemente prejudicadas, fator importante num veículo profissional - principalmente quando o motor fica sob o banco do motorista). Adicionalmente, nem a aerodinâmica nem o aproveitamento do amplo espaço interno foram prejudicados no projeto.
O
habitáculo garante a motorista e acompanhante o conforto digno de um carro
de passeio. A ergonomia do posto de motorista é bastante boa, acomodando
mesmo pessoas de grande estatura, graças ao curso bastante longo dos trilhos
dos bancos. Os bancos são confortáveis, garantindo uma permanência longa
ao volante sem surgimento de fadiga. Os cintos de três pontos são dotados
de regulagem de altura das ancoragens e se acomodam com perfeição ao corpo
dos ocupantes. O painel é bonito e todo o acabamento interno é robusto e
de boa qualidade, sem ser luxuoso. Aliás, o modelo avaliado pela Jornauto,
embora praticamente desprovido de qualquer amenidade (até mesmo de travas
elétricas nas portas), não deixa a desejar em termos de requisitos de segurança,
sendo dotado de duplo air-bag, luz traseira de neblina e regulagem de altura
dos faróis, com quatro posições, que garantem perfeita iluminação da estrada
em qualquer condição de carga. Outro item de segurança importante e de impressionante
eficiência, considerando o tamanho dos vidros do Kangoo, são os desembaçadores
tanto das janelas dianteiras como da porta traseira.
No geral, todas as características do Kangoo foram projetadas para garantir
segurança no trânsito urbano, tais como as lanternas traseiras, cujas luzes
de freio e indicadores de direção estão em altura que permite visualização
por motoristas de até três carros atrás. Outro detalhe é o brake-light colocado
a mais de 1,80 m do chão, e bastante luminoso. Apesar da frente alta, a
visibilidade à frente é boa em todos os sentidos. O espelho esquerdo, convexo
é excelente, facilitando muito as manobras, mas do lado direito o ângulo
cego é capaz de ocultar um veículo médio. Num furgão fechado nas laterais,
esse tipo de problema pode facilmente tornar-se crítico, favorecendo acidentes.
Poderia ser resolvido facilmente, dividindo o espelho (bem grande, por sinal)
em dois - a parte superior normal e a inferior bem convexa. O espelho central
cobre um ângulo adequado, permitindo a visão completa das janelas que cobrem
quase 50% da área das portas traseiras.
Num
serviço de coletas e entregas, é interessante a quantidade de coisas que
os operadores de um veículo devem levar. O Kangoo Express é dotado de bons
bolsos nas portas e um porta-luvas generoso, pelos padrões atuais, mas o
espaço no console é bastante reduzido. É uma pena que, com cerca de 400
mm entre a cabeça de um motorista alto e o teto, a Renault não tenha colocado
ali um porta-objetos similar ao existente na versão passageiros, uma verdadeira
mão-na-roda durante o uso do veículo em serviço. Outra adição bem-vinda
seria tampa do porta-luvas, que permitiria manter objetos pessoais longe
da cobiça dos amigos do alheio (convém não esquecer que o tipo de serviço
previsto para um furgão dessa categoria prevê estacionamentos constantes
em zonas de alto tráfego de pessoas).
A motorização de 1.0 litro do Kangoo Express impressiona pelo torque em baixa rotação e o silêncio em serviço. Trata-se, seguramente, de um dos melhores motores de 1.0 litro do mercado. A curva de torque e o escalonamento curto de marchas privilegiam a agilidade do Kangoo em detrimento da velocidade máxima. Mas mesmo 139 km/h com um motor desse tamanho não são exatamente uma vergonha, para um carro com uma área frontal pelo menos 30% maior do que a dos carros normais de passeio e carregado com 250 kg de lastro (50% da carga útil referida no manual - 500 kg). Não que 30 kg façam qualquer diferença prática, mas nas portas, a carga indicada é de 470 kg, elevando para 54% essa relação. Como compensação à velocidade final, na cidade, mesmo com o lastro indicado acima, o utilitário se move com uma leveza e agilidade dignas de inveja para outros carros de motores pequenos.
Um
ponto negativo é a capacidade de rampa. Tanto o motor como a embreagem estão
nitidamente subdimensionados para enfrentar ladeiras íngremes, mesmo com
apenas 50% da carga máxima. Os usuários que pretendam adquirir um Kangoo
Express para operar em cidades com muitas ladeiras devem optar pelo motor
1.6 se quiserem evitar dor-de-cabeça e um desgaste prematuro do trem-de-força.
Outro benefício adicional do motor Renault de 1.0 litro são um silêncio
e uma suavidade de funcionamento ímpares no mercado brasileiro, até agora.
Com o carro em marcha lenta é difícil saber se o motor está ligado ou não.
O Kangoo Express é o furgão urbano que trata melhor os seus operadores,
hoje, em termos de conforto, graças ao baixo nível de ruído em funcionamento
e à maciez da suspensão. Em movimento, as maiores fontes de ruídos ficam
por conta das caixas de roda traseiras, onde é lançada toda a sujeira que
se desprende dos pneus (outra fonte importante de ruído por si mesmos),
e a porta-traseira, que apresenta algum jogo e guincha um pouco a cada obstáculo
do caminho. Outra demonstração da preocupação da Renault com o conforto
dos operadores do Kangoo Express é a maciez de todos os comandos. O volante,
mesmo desprovido de assistência hidráulica, é mais leve do que a média da
categoria dos 1.0, e os reduzidores de raios de curva permitem ao motorista
encaixar o carro em qualquer vaga de estacionamento, por minúscula que seja.
O câmbio é macio e com curso de engates correto, mas um pouco imprecisos.
Talvez devido à excessiva maciez dos coxins do trem-de-força, a alavanca
de câmbio apresenta um incômodo movimento de vai-e-vem a cada troca de marcha,
principalmente em alta rotação.
Como
veículo de carga, os detalhes do projeto permitem alta eficiência e conforto
aos operadores de transportes urbanos. O baú do Kangoo Express acomoda até
2530 litros úteis de carga, tendo dimensões internas bastante generosas
(vide figuras), acessível por portas amplas que permitem fazer um eficaz
carregamento fracionado assim como a introdução de uma carga indivisível
capaz de ocupar 75% do volume total do mesmo. Assim como no antigo Express,
as portas traseiras podem ser abertas a 180º, permitindo acesso total ao
baú, mas a diferença está na colocação de uma pequena maçaneta na parte
baixa da porta, facilitando bastante a liberação das travas que mantém as
portas a 90º durante a operação normal de carga e descarga.
Cerca de meio metro do solo, a altura da plataforma de carga é ergonomicamente ideal para evitar flexões lombares na coluna vertebral, capazes de causar doenças ocupacionais. O assoalho é dotado de bons ganchos de amarração da carga, mas um detalhe aparentemente esquecido pelo fabricante pode se revelar fatal aos ocupantes em caso de uma colisão. Como mínimo, o Kangoo Express deveria ser dotado de barras transversais a meia altura dos encostos dos bancos, fortemente ancoradas entre as colunas B de cada lado. Isto pode evitar que um deslocamento da carga contra os bancos esmague os ocupantes à frente, cancelando completamente o efeito dos air-bags. Como se trata de um furgão destinado às cargas de baixa densidade e tipicamente muito fracionadas, uma tela de proteção cobrindo 2/3 da largura poderia ser oferecida como opcional. Mesmo algo leve como, digamos, uma caixa de sapatos, voando numa colisão, pode causar um belo estrago na cabeça do motorista. As amplas luzes de ré (em ambos os lados, contrariando a tendência "moderna") são muito importantes ao manobrar o furgão em um páteo à noite. E por falar em, operação noturna, todo o interior do Kangoo é provido de apenas uma lâmpada. Graças a um sistema interessante de lentes, a iluminação interna é bastante aceitável em toda a área de carga e também no habitáculo, onde um par de lentes inseridas na cobertura da lâmpada, direcionam feixes mais intensos de luz sobre motorista e ocupante, mais uma solução simples eficaz e engenhosa da Renault.
O comportamento dinâmico do Kangoo é exemplar, mesmo em comparação com outros carros de passeio de mesma potência. As manobras evasivas e o slalom são leves e controlados de modo inesperado para um carro tão alto. Claro, o fato de utilizarmos 250 kg de lastro em sacos de areia abaixa bastante o centro de gravidade, melhorando ainda mais o comportamento do carro, mas nunca de modo a deixá-lo melhor do que um carro de passageiros do mesmo porte. Mesmo em vista dos bons resultados nas provas dinâmicas, eu não tentaria nenhuma "gracinha" com uma carga de baricentro alto, um piano, por exemplo, pois o resultado é que as rodas acabem do lado inesperado do carro. Mas nas nossas condições de teste, o Kangoo foi levado até o limite extremo de aderência dos pneus, com a roda traseira interna suspensa a cerca de 200 mm do asfalto devido à aceleração centrífuga, e ainda assim tudo o que se sente é um sobresterçamento controlado, bastando aliviar suavemente o volante e o acelerador para recuperar imediatamente um comportamento de carro familiar.
Por outro lado, os freios foram dimensionados somente para o tráfego urbano. A resposta de frenagem à menor pisada no pedal é praticamente instantânea, mas em velocidade mais alt a as desacelerações obtidas são preocupantes com o veículo carregado. As rodas dianteiras travam com facilidade, causando a perda de controle direcional, e a modulação da força de frenagem requer uma habilidade superior à de um motorista médio. O recurso dos "dois-tempos" - soltar o freio para recuperar o controle destravando as rodas dianteiras e voltando a frear após o obstáculo - permite safar-se de uma colisão, mas causa uma perda significativa na força de frenagem, prolongando a distância de parada além do recomendável para obter uma evasão eficaz (corre-se o risco de escapar de um obstáculo e colidir com outro que esteja ao lado).
Matéria publicada na edição 98 - Agosto de 2000