Ford EcoSportFord EcoSport: o cowboy urbano
Ford ferve no mercado com jipinho que é objeto explícito de desejo.

Jose Rezende - Mahar, do Rio de Janeiro

Há dois anos, ninguém diria que a Ford, sem camioneta depois do desaparecimento da Escort Wagon, iria gerar ágio e filas em um cenário de depressão do mercado. Ali onde todo mundo perde vendas e bate lata atrás do comprador, esse bicho em extinção, quase protegido pelo Ibama. Esse é o caso atual do Ecosport, utilitário apresentado faz poucos meses pela Ford. Alcançou o oitavo lugar no ranking geral dos emplacamentos do Renavam: foram 2.863 unidades em junho, vendendo mais do que Clio, Corolla, Astra e 206. Só perde para o Fiesta dentro da Ford, sinal de que o público reconheceu a qualidade do produto, apesar do acabamento meio aproximativo.

O interior

É a questão que não quer se calar.
Ao longo do tempo em que o Ecosport esteve nas mãos da imprensa especializada, o clamor foi geral quanto à pobreza do acabamento, um dos antigos pontos altos da Ford. Ora, é muita pretensão montar um carro inédito, fazer uma fábrica nova e ainda por cima ter o nível de qualidade das fábricas do Sul. Isto acontece principalmente no tocante às opções de materiais disponíveis on time, como exigem as técnicas de fabricação modernas. A luta ainda é renhida pela qualidade, mas com o tempo as coisas se ajeitam. Mas de projeto, senão de execução, o interior é bem interessante, beirando o ótimo. Existem lugares e gavetas de todos os jeitos e posições, o que vai fazer a glória daqueles que não têm um carro, mas um armário rodante e acumulam tudo dentro dele.A ergonomia, ou a forma em que os comandos estão colocados, é perfeita. Do grande ao pequeno todos se sentem em casa, e têm aquela qualidade do utilitário que todos gostam: a altura.

Sentado lá em cima, o motorista curte uma sensação de segurança, de maior visão, que encanta a muitos e faz a glória dos mais prejudicados em altura, que tudo vêem. Os comandos propriamente ditos são suaves e precisos: a direção transmite fielmente o que o carro está oferecendo de aderência, o cambio é instintivo em seu curso e resistência, sendo macio para quem não dispõe de muita força. Os freios estão à altura das prestações do carro e tudo favorece o controle e a qualidade de convivência. Só os bancos podiam oferecer um pouco mais de firmeza ao corpo em curvas mais apimentadas, já que o couro de seu revestimento é meio deslizante. Isto remete à não opção por couro na hora da compra, ainda mais que este revestimento custa caro.

A outra grande questão do Ecosport é seu reduzido compartimento de bagagens, aproximadamente a metade daqueles que existem na Palio Weekend e Parati, mas parece que o público comprador está pouco se lixando para isso, já que o Ecosport vende mais que ambos. O seu preço é que fica um pouco salgado: de R$ 37 mil o 1.6 para R$ 46 mil no 2.0.

A mecânica

Andamos mais com a versão que desconfiamos ser melhor: a 1,6 litros. Montado com o respeitado motor Rocam 1.600 cm³ do Fiesta, do Ka e proximamente do Focus básico, o 1.6 se defende muito bem na hora de andar, mesmo com carga máxima. Só não é uma arma de guerra como o 2,0 litros (de 143 cv) pode ser. Seus 98 cv são perfeitamente suficientes para a vida normal sem puxar reboque ou lancha. Os números são 0 a 100 km/h em 13,5 segundos e 166 km/h de final, com um motor bem amaciado e solto, contra 10,1 segundos de 0 a 100 e 180 de final para o 2,0 litros. Esta velocidade máxima é regulada eletronicamente pelo computador do motor em função dos limites dos pneus, questão delicada na Ford atualmente: os Pirelli 205/65SR15 não podem rodar a mais de 180 e são feitos especialmente para o Ecosport. Unem boa aderência em asfalto e uma certa facilidade de transpor estradas de terra e obstáculos. Nada que um bom carro de tração dianteira, especialmente com a altura livre dele, não passe fácil. Já o modelo 1.0 Supercharger tem uma indiscutível vantagem em preço e quase a mesma potencia do 1.6 (95X98 cv), mas é deficiente em torque em baixa rotação. É obrigatório pisar fundo para extrair algum desempenho dele, principalmente onde o 1.6 mostra suas qualidades. O resultado é uma velocidade final de 156 km/h e zero a 100 km/h em 15 segundos. Estes resultados estão bem próximos do 1.6, mas há uma ressalva: nas serras ou em retomadas, onde o torque é mais importante, os números favorecem o modelo de motor maior. Nele é dispensável mudar de marcha a todo o momento para manter o motor em ponto de bala, girando na faixa útil de rotações. Uma vantagem do 1.0 é gastar um pouco menos que o 1.6, com resultados na faixa de 12 km/l, em média, para o grande e de 13 para o 1000 cc.

O comportamento

Tivemos a oportunidade de fazer algumas passagens fora de estrada com o Ecosport e ficamos impressionados com sua capacidade com tração só na dianteira. Imagine como será a versão com tração total, que sai no fim do ano, exclusivamente com o motor 2,0 litros. Mas este carro é um cowboy urbano, e vai viver no asfalto com seu chapéu Stetson de banda. Ali, ele arrasa. É tão bom quanto o Fiesta, com o qual compartilha muitos componentes mecânicos. Entre eles está o trem de força e parte da plataforma. O engraçado é ouvir a Engenharia da Ford dizer que o Fiesta é que deriva dele, e não o contrario. A razão: o projeto do Ecosport é anterior ao do Fiesta.

Ele tem a qualidade de não balançar como os concorrentes, de não enjoar os ocupantes. Passa sensação de estabilidade o tempo todo e pisa firme no chão. Ser um carro seguro e bom de curva é que faz do Ecosport um carro sem precedentes no setor dos SUV, ou utilitários esportivos. O fato é que o Ecosport espezinha, em termos de comportamento, os seus concorrentes. Todos são importados e bem mais caros. Ninguém tem o seu mix de qualidades, aparência, altura e disponibilidade de enfrentar estradas de terra e barro com tal desenvoltura. Isso misturado a um comportamento dinâmico no piso asfaltado, vários degraus acima mesmo de carros solidamente estabelecidos no mercado, como Gol e Palio. Pena o Ecosport custar um pouco mais do que eles, sem contar o ágio que os concessionários cobram para a venda. Mas com o tempo, que é senhor da razão, os preços vão se estabilizar e ainda assim o Ecosport vai sempre ser lembrado como o símbolo maior do renascimento da Ford num mercado em que já foi a gata borralheira e agora desfila com um sapatinho de cristal feito na Bahia de Todos os Santos.

Matéria publicada na edição 131 - Junho de 2003

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