O
Celta, no seu uso prático
A
estratégia de mercado perdeu força após a FIAT derrubar
a proposta da GM de ter o carro mais barato do País e o Celta acabou
vítima de uma reversão dos clientes, criada pela tentativa
da própria GM de aproveitar um boato de que o Celta custaria menos
do que o real.
Carlos Roberto Fernandez
Mantido em segredo praticamente até às vésperas do lançamento, o design do Celta tem belas linhas frontais e um perfil de cintura, que seguem o corporate feeling Opel em elementos estilísticos que remetem diretamente ao Astra e Vectra. Por outro lado, a traseira contém excessivas referências aos concorrentes, perdendo uma área rica em oportunidades para os designers reforçarem a personalidade própria do veículo. Com o pacote de personalização, instalado na concessionária, o resultado global é um carro verdadeiramente bonito, mas limpo, o Celta é incapaz de criar um diferencial favorável. O perfil lateral lembra muito o do Corsa. Associado às dimensões do novo carro, muito próximas, contribui para o risco de canibalização entre os produtos que a GM terá dificuldades em manejar.
O
posto do motorista é bem projetado, tornando agradável dirigir
o Celta. Os bancos dianteiros são os melhores de toda a linha GM,
em termos de acomodação dos ocupantes e restrição
lateral em curvas. A regulagem do encosto finalmente foi colocada no lado
interno do banco. Outra vantagem em relação aos demais modelos
GM foi a racionalização dos comandos na coluna de direção
(a buzina, também reposicionada, deveria ter ficado no volante),
além da eliminação da incômoda trava das portas,
substituindo por um sistema similar à toda concorrência. Os
pedais estão bem posicionados, exceto o acelerador, muito atrás
do console, e a posição de descanso do pé esquerdo
é das melhores.
O volante tem diâmetro excessivo, interferindo com os joelhos do motorista,
mesmo de baixa estatura. Poderia ser reduzido em cerca de 25mm, o suficiente
para obter uma empunhadura perfeita e eliminar esta interferência
sem que a direção se torne pesada. A visibilidade geral é
boa, mas os espelhos poderiam ser um pouco maiores, visando o uso urbano
pretendido para o Celta. Há um ângulo cego à esquerda
que poderia ser resolvido encurvando a extremidade do espelho. O painel
é simples, mas tem todo o necessário. Bem-vindo o alerta luminoso
de temperatura (um ponteiro a menos para olhar), mas o medidor de combustível
digital poderia ter um número maior de barras para melhorar a visualização.
O display conjunto para relógio e odômetro também é
ótima idéia. A organização do painel é
ergonomicamente perfeita, à exceção da iluminação
branca de fundo do velocímetro, boa para a cidade, mas que deveria
ter uma luminosidade menor para uso na estrada.
O habitáculo do Celta oferece conforto mínimo para quatro
ocupantes em trajetos curtos. Para viagens mais longas, apenas crianças
podem ser bem acomodadas no banco traseiro. Os materiais de acabamento interno,
plásticos e as texturizações dos revestimentos são
de excelente qualidade. Em relação aos concorrentes diretos,
o Celta apresenta os tecidos de forração dos bancos de alta
qualidade, fáceis de limpar e de alta resistência. O interior
não apresenta nenhuma chaparia exposta, outro ponto muito positivo
a favor da durabilidade do carro.
O
problema principal é que, pelo mesmo custo, os designers poderiam
ter se esforçado para oferecer um interior de aspecto mais atrativo.
Um carro deste nível não é símbolo de status,
mas o comprador deseja sentir-se bem dentro dele, e é aqui que o
painel reto, feio e sem detalhes, destoante das entradas de ar redondas,
copiadas de um concorrente, forma o nó central da impressão
negativa que o interior do Celta passa aos seus ocupantes. Não há
bolsos nas portas, mas apenas um exíguo porta-trecos no console e
o porta-luvas, de tamanho superior à média, que não
suprem o espaço e a utilidade necessária. O porta-malas impede
o uso do Celta por uma família média em um final de semana
só que neste país subdesenvolvido, carros como o Celta
são, em percentual elevado o primeiro ou único carro da família.
A manufatura também deixa por desejar. Além de existirem rebarbas
evidentes em várias partes plásticas, inclusive do pacote
de personalização, várias peças se desprenderam
durante a avaliação.
O
desempenho no trânsito urbano é excelente. A relação
curta de marchas, associada a um volante leve e rápido, dão
ao Celta uma agilidade excelente inesperada para essa motorização,
já conhecida no Corsa. O comportamento dinâmico também
é um ponto forte do Celta. Em curvas, comportamento é decidido
e estável, de fácil controle até o limite de aderência.
O mesmo caráter surge nas manobras evasivas - rápidas e seguras
- um fator importante de segurança no trânsito urbano.
Os freios têm sensibilidade e progressividade de controle excelentes,
permitindo efetuar frenagens em distâncias seguras evitando o travamento
das rodas com facilidade através da modulação da força
no pedal. A 5ª marcha poderia ser alongada sem prejuízo da agilidade
urbana e favorecendo um funcionamento mais relaxado do motor, na estrada.
Embora a dirigibilidade tenha sido um ponto privilegiado do projeto, a GM
negligenciou o conforto acústico e vibrações, no Celta.
A suspensão absorve mal as irregularidades da pista, de modo que,
em ruas de paralelepípedos, as vibrações e o ruído
provenientes da suspensão e dos painéis plásticos estão
acima do aceitável. O motor também deveria ter um tratamento
acústico mínimo. O ruído interno já é
incômodo a 60km/h, e acima dos 100km/h torna-se praticamente impossível
conversar dentro do Celta. A favor do design, não existem ruídos
de origem aerodinâmica.
Comprando pela Internet, as deficiências de opcionais e acessórios ficam evidentes. Um ponto deficiente do Celta é a oferta de opcionais e acessórios. Há apenas um pacote de conforto disponível para o Celta, no qual está incluído (pasmem!) o temporizador do limpador do pára-brisas, que adiciona R$ 499,00 ao preço básico de R$ 13.300,00, entregue em São Paulo. Pelo mesmo preço é possível comprar um Mille Smart com um pacote de conforto similar ao do Celta, mais travas e vidros elétricos e pintado com uma cor metálica. Já o Palio Young básico custa R$ 700,00 a mais que o Celta básico, mas a diferença de espaço interno e porta-malas dos modelos FIAT não é exatamente desprezível, para quem quer um carro para a família, embora quando confrontado com eles, o Celta apresente um acabamento interno de qualidade nitidamente superior. Outro ponto a favor do Celta, o pacote de personalização externa, instalado na concessionária, que, exceção feita ao adesivo para a tampa do tanque de combustível, de péssimo gosto, agrega uma estética moderna e agradável ao carro, tornando-o um dos carros mais bonitos na categoria.
Matéria publicada na edição 101 - Novembro de 2000